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MEU ANIMAL AMIGO: VIDA NÃO É BRINQUEDO, ANIMAL NÃO É PRESENTE

sábado, 21 de fevereiro de 2009

VIDA NÃO É BRINQUEDO, ANIMAL NÃO É PRESENTE


Ninguém sabe dizer o número, mas é certo que depois de festas tradicionais como páscoa e natal, aumenta o número de animais abandonados nas clínicas e parques de São Paulo. O mesmo acontece em todo o mundo: segundo a WSPA (Sociedade Mundial de Proteção Animal), mais da metade dos coelhos, cães e gatos adquiridos nesses períodos, são abandonados. Em São Paulo são 25 mil cães e gatos recolhidos anualmente pelo Serviço de Controle de Zoonoses, dos quais apenas 1.200 conseguem um novo lar.
Os motivos para o abandono são vários: viagem de férias e ninguém para abrigar o animal, desistência do “brinquedo”, o trabalho gerado pelo animal, uma eventual deficiência física ou doença, problema de comportamento e outros. É sempre o mesmo artifício: à noite abandonam nas portas de faculdades ou de hospitais veterinários, nas clínicas, nos parques municipais ao amanhecer, ou mesmo à plena luz do sol, nas feiras e parques da cidade. Nos pet shops, geralmente entregam o animal para um procedimento, fazem mil recomendações e nunca mais retornam, deixando o mascote para quem se interessar.
Diariamente o Serviço de Zoonoses da Prefeitura de São Paulo tira das ruas cerca de 60 animais entre cães e gatos, menos de 20% consegue abrigo, os demais são sacrificados, mesmo destino dado a animais abandonados em clínicas: não há como alimentar a todos. Ongs (Organizações não governamentais) de proteção à vida animal de todos os tipos promovem feiras e campanhas de posse responsável. Uma das feiras é feita todos os anos em outubro, no dia de São Francisco, o santo protetor dos animais, pelo CCZ de São Paulo: “é o momento em que muitos animais vacinados e castrados encontram novos donos” conta Drª Luciana Hardt, diretora do CCZ de São Paulo comemorando o sucesso que a iniciativa vem tendo. O veterinário e adestrador Dan Wroblewski, 43, acredita que o abandono é falta de conscien-tização do que é posse responsável: “com o aumento da insegurança mais pessoas, especialmente da classe média, estão vendo os animais como aliados, mas não se dão conta das responsabilidades que essa companhia exige. Muitas vezes, se entusiasmando com um filhote ou com os conselhos de um conhecido, a pessoa acaba comprando um animal sem se importar com o fato de que ele cresce, adoece, envelhece, exige dedicação, educação e alimentos e nem sempre pode acompanhar o dono em todos os lugares e, sobretudo, lembra, se reproduz”.
-Qualquer aumento de dificuldade pode gerar a necessidade do abandono e isso não é difícil, basta ter um momento de falta de escrúpulo. Dan é proprietário de um Hotel para cães, e freqüen-temente se vê às voltas com animais que são “esquecidos” por seus donos. A incidência é tanta que Dan passou a exigir documentos e comprovantes de residência dos proprietários de seus hóspedes, e mesmo assim, acontece de um ou outro animal ser abandonado.
O período após oNatal é uma temporada de animais abandonados. Pressionados pelas crianças muitos pais adquirem filhotes para doar de presente. No fundo têm esperanças de que os animais ensinarão aos filhos a ter mais responsabilidades, afinal, o compromisso é sempre de que a criança vai incumbir-se de cuidar do cão ou do gatinho.
A rotina do dia a dia, entretanto é diferente. Nem sempre a criança desempenha bem as tarefas, o filhote rói móveis e roupas, faz suas necessidades no tapete da sala e chora no meio da noite. Irritados, pais e mães logo se vêem na compulsão de livrar-se do intruso.
A primeira tentativa é de passar o problema para frente. Querem doar para o avô, o tio que tem chácara, o porteiro do prédio e, diante da total impossibilidade optam pelo abandono.
A maioria dos veterinários têm histórias para contar de ninhadas inteiras abandonadas na porta da clínica, o cãozinho com coleira preso na maçaneta, ou simplesmente largado no interior dos parques.
Os cães, mesmo filhotes, tendem a seguir seus donos, o que já não acontece com os gatos. São esses últimos que infestam os parques, como o Parque da Água Branca, em São Paulo, onde a direção calcula a existência de quase 500 animais. Abandonados, os gatos são alimentados por voluntários, crescem, procriam e aumentam o problema do município.
- A solução é a sociedade aderir à posse responsável – diz Drª. Luciana Hardt – é a pessoa, antes de adquirir o animal conhecer suas necessidades, suas exigências e avaliar se vale realmente à pena ter o bicho ou não. Somente depois de refletir com toda a família, analisando todos os aspectos da vida em comum, ir à busca do animal e, se for o caso, realizar a sua castração para evitar problemas futuros!
O PAPEL DO VETERINÁRIO
Se por um lado a população é responsável pelo abandono de animais, por outro os veterinários devem assumir de fato o seu papel na sociedade, atuando de forma educativa e buscando tornar a castração mais acessível à população de baixa renda. Desde 1992 o controle de reprodução de cães e gatos é recomendado pela OMS (Organização Mundial de Saúde) para estabilização da população animal.
Em setembro de 2003, no Rio de Janeiro, um comitê constituído por representantes dos países latinoamericanos e Caribe se reuniu na Primeira Reunião da América Latina sobre Posse Responsável, realizada pela Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS) e World Society for the Protection of Animals (WSPA), quando se confirmou a necessidade do controle da reprodução, do registro animal, da educação e legislação mais rigorosa para controlar efetivamente os cães e gatos e, conseqüentemente, as zoonoses envolvidas.
Dentre os pontos discutidos nessa reunião, alguns merecem destaque:

A educação, controle da reprodução e registro e identificação dos cães e gatos são as atividades mínimas que devem ser contempladas em programas de controle animal;
- Programas de controle de cães e gatos devem ser inseridos nos programas de controle de zoonoses que envolvam esses animais;
- A necessidade do envolvi-mento dos médicos veterinários uma vez que a solução do problema do excesso animal passa pelas suas mãos;
- Atividades para o aumento da idade média dos cães e gatos devem ser aplicadas uma vez que a alta renovação não permite a permanência de uma barreira imunológica animal estável para a própria proteção humana, principalmente no que diz respeito à Raiva;
- A necessidade de promover não apenas a aquisição, posse e criação responsável dos animais de estimação, mas também envolver afetivamente seus proprietários para diminuição do abandono de animais, trabalhando mente, mãos e coração nos programas educativos;
- A maioria dos animais soltos em vias públicas possui, pelo menos, uma pessoa ou “proprietário não assumido” que os alimenta e, muitas vezes, os abriga.
- Os animais com proprietário são os principais responsáveis pelo excesso na população animal;
- A grande maioria das agressões é ocasionada dentro dos próprios domicílios por cães que possuem proprietários.- A necessidade de facilitar o acesso geográfico e econômico para as cirurgias de esterilização para a população em geral.
- A necessidade de normas claras, precisas, dos Ministérios da Saúde para o controle de cães e gatos nos diferentes países.
PROGRAMA SAÚDE DO ANIMAL
Servindo como modelo para outros países da América Latina, o Programa Saúde do Animal (PSA) do Centro de Controle de Zoonoses de São Paulo surgiu em 2001 com o objetivo de diminuir o número de cães e gatos abandonados e sacrificados na cidade, além de diminuir o risco de transmissão de zoonoses por essas espécies.
Desde 1982 e 1984 que São Paulo não vê, respectivamente, a ocorrência de raiva humana e canina/ felina. Para que isso tivesse ocorrido, medidas efetivas de vacinação contra raiva, vigilância, cobertura de foco, apreensão e eliminação de animais errantes, exames laboratoriais, foram os suportes necessários, seguindo as recomendações da OMS. Hoje, a adesão à vacinação e as contínuas medidas de vigilância provavelmente sustentam o controle da doença.
Nestes últimos 20 anos a relação homem-animal se intensificou, mudou de valores. Se partirmos do pressuposto que a razão homem/animal tem uma correlação positiva, outras perspectivas podem ser vislumbradas, levando a crer que embora as populações tenham aumentado nesse período, observa-se ano a ano, a diminuição do número de animais apreendidos, portanto abandonados. É na eliminação desse foco que a sociedade deve caminhar e exemplos em outros países comprovam e a OMS recomenda, é necessário novas posturas, mais ética no trato com o animal, salvaguardada a saúde pública.
Pode-se observar atualmente grande número de instituições públicas e particulares como clínicas, pet shops, escolas, centros de saúde, pronto-socorros, parques, delegacias, que vivem incontáveis situações de animais jogados às suas portas, além das próprias ruas, onde se observa toda sorte de problemas que os animais não supervisionados causam, questões que vão desde acidentes de trânsito, agressões, crueldade, transmissão de doenças para outros animais e para o próprio homem.
O abandono toma grandes proporções e a solução está em outras abordagens, tais como a posse, ou melhor, a “guarda” responsável, uma vez que enquanto cada um não tomar para si uma parcela da responsabilidade, não há como reverter essa situação. A retirada do animal subentende que providências locais sejam tomadas para que não haja mais a reincidência do problema.
Visando uma solução para esta questão foi criado o PSA que tem cinco pilares: educação em posse responsável, esterilização de cães e gatos em massa, registro de animais, adoção responsável e incentivo a criação de leis que dêem suporte a essas ações.
Cabe ressaltar algumas ações que o PSA tem desenvolvido:
1) O Projeto “Para Viver de Bem Com os Bichos” do PSA, tem como objetivo a educação continuada em posse responsável e nos anos de 2002 e 2003, treinou 484 escolas particulares e municipais de ensino fundamental com 359.000 alunos envolvidos. Em 2004 388 escolas da rede municipal e estadual se envolveram no projeto. O tema enfatizado no assunto posse responsável foi a prevenção a agressões.
2) Através do PSA, o CCZ mantém convênio com ONGs de proteção animal e entre outubro de 2001 e outubro de 2004 foram realizadas 74.044 cirurgias de esterilização em cães e gatos subsidiadas, para proprietários sem recurso.
3) Em 2000, estabeleceu parceria com clínicas veterinárias para esterilização a baixo custo um mês ao ano. A partir de novembro de 2003 foi lançada a Rede Veterinária que conta com 105 clínicos veterinários, distribuídos que por toda cidade, programa ampliado da parceria com a PMSP/SMS/CCZ, onde promovem esterilização a preço baixo permanentemente.
4) Considerando o tamanho das populações canina e felina e os níveis de esterilização praticados em outros países com objetivo de controle (onde chegam de 70 a 80% dependendo da espécie e sexo do animal), percebe-se a importância de um envolvi-mento mais amplo por parte dos clínicos veterinários para a participação com sua cota de responsabilidade social, além de sua importância enquanto agente de saúde pública.
5) O registro geral do animal (RGA), a partir de fevereiro de 2002, cadastrou aproximadamente 320.000 animais. Vale lembrar que o conhecimento do tamanho das populações, suas características e distribuição norteiam políticas de saúde animal e saúde pública.
6) O Projeto “Para Ser o Melhor Amigo”, instituído pelo CCZ, também também assimilado pelo PSA, para encaminhamento à adoção responsável de animais abandonados, em parceria com o pet shop Cobasi, as Ongs “Instituto Nina Rosa” e “Estimação”, e apoiado pela rações Guabi durante o ano de 2002, encaminhou em 4 anos mais de 4.000 animais. Desde outubro de 2001 esses têm sido oferecidos, em doação, já castrados.
Dr. Marco Antonio Gioso, presidente da Anclivepa-SP, vê este fato com cautela ao falar em nome dos associados: “O papel do veterinário neste caso é claro e inexorável, porém não podemos arcar com toda responsabilidade que, por vezes, órgãos governamentais parecem querer impor”, diz Gioso.
Castrações a baixo custo - como nossos próprios associados já nos demonstraram em questionário anterior - pode ser possível e viável, desde que somente para pessoas de baixo poder aquisitivo (e não em clínicas de bairros nobres) e sempre com a participação do Estado”. Por outro lado, cada um de nós pode e deve fazer aquilo que, na opinião de cada um, acaba faltando nessa problemática toda: a informação. “ O público leigo, em geral, não entende o problema. Para essas pessoas, o problema é o cão! Não entendem a respeito do controle populacional, por exemplo. Cabe a cada um, em suas clínicas, estabelecer sólidos programas de conscientização, mesmo sendo para uma clientela que você julga bem esclarecida. Não adianta sentar e esperar o Governo encarar o fato!”.
O debate é o primeiro passo. Há a necessidade de se manter investimentos na área, além de um envolvimento crescente por parte da população. A responsabilidade e o compromisso de cada cidadão para com outros seres vivos são inversamente proporcionais à densidade populacional de espécies animais abandonados. Cabe-nos a todos implementar as mudanças necessárias para o encontro de um ponto de equilíbrio.

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