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MEU ANIMAL AMIGO: ESPIRITISMO E FRANGO ABATIDO

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

ESPIRITISMO E FRANGO ABATIDO

Madrugada. No terreiro do quintal banhado em luz amarela, uma mulher atarracada vai, um a um, abatendo os frangos reunidos num cercado feito de arame trançado. Morte seriada, indolor. Dispersos, os animais aguardam a sua vez: a lâmina desliza pelo pescoço fino, e eis o sangue a correr viscoso e quente através das penas. Há outras alternativas, dentre as quais uma é, de longe, a mais espalhafatosa: torcer-lhe o pescoço com as mãos e, em seguida, assistir impassível às piruetas e volteios do animal. Dona Socorro dispensa o espetáculo, preterindo-o em favor de uma morte sorrateira, evanescente: morrer por falta de sangue. Daí, seguir, faca em punho, em direção ao cercado. Depois de mortos, o destino é o panelão de água fervente. O passo seguinte é os despir de suas penas. As vísceras são retiradas através de um corte profundo na base do frango. À espera, gatos multicores. Roçando-se em suas pernas ou empoleirados nos muros, acompanham, ao longo da noite, o desenrolar do abate.
Em algum momento da conversa, dona Socorro confessa: era uma amadora quando começou. “Nunca tinha matado um frango na minha vida”, uma ponta de culpa nas palavras. Depois, não que fosse tomando gosto, mas, rosto carregado enquanto relata, não demorou a aprender o ofício. E foram, mais ou menos, dez anos abatendo animais e distribuindo-os, tão logo o dia raiasse, entre sua clientela, que incluía hospitais e escolas próximas. O nome completo é Maria do Socorro Carneiro de Moraes. Tem 63 anos e há 43 mora na Parquelândia, bairro de Fortaleza cuja história se confunde muitas vezes com a dela. Nesse tempo, como ela mesma diz, fez de tudo um pouco. Atualmente, mantém uma banca de revistas e livros novos e usados, a Antiquário, bem ao lado da Igreja Redonda, uma das mais tradicionais da cidade. Dona Socorro, como é conhecida de todos, não se surpreende quando, numa quarta-feira de dezembro de 2005, entre livros folheados ao acaso e perguntas desconcertadas, revelo a finalidade da visita. O termo entrevista certamente causaria desconforto, daí a variante empregada: “posso dar uma palavrinha com a senhora?”. O largo sorriso abria-me ótimas perspectivas. A tarde inteira desfiando o novelo de uma vida inteira. Na hora de ir embora, um forte abraço. A esta visita seguiu-se mais uma, feita há dois ou três meses. Desta vez, fui recebido como um velho amigo a quem dona Socorro há muito não via. Sentamos nos mesmos bancos de madeira, agora à esquerda de Antiquário. “É que de manhã o sol bate lá daquele lado”, explicou.
O trânsito na Avenida Jovita Feitosa fluía, àquela hora, tranqüilo. Aliás, era por ali, descobriria depois, que dona Socorro seguia, no finalzinho de tarde, até a casa da mãe, no bairro de Fátima. Antes, a extensa avenida não passava de uma estradinha de terra vermelha a perder de vista. A tarde apenas começava. Foi relembrando um pouco esses dias de ontem e hoje que reatamos as pontas de uma conversa perdida no tempo. Um exercício cuidadoso, amarrar as pontas e descobrir outras nuances num quadro banhado em cores fortes. A conversa arrastava-se em alguns momentos; noutros, ganhava fôlego escorregando sobre a planície de uma vida inteira vista de agora. Entre um momento e outro, erguia-se a custo do banquinho para atender um cliente ou, ainda, catadores de lixo que lhe traziam pilhas de Cláudia, Veja e Caras esfarrapadas. “Se não fosse por mim, estas revistas iriam pro lixo. Também compro pra ajudar”, explicou-se depois que um negro esquálido, curvado sobre um carrinho-de-mão cheio de papelão, foi embora.
Há 15 anos à frente da banca, dona Socorro é dessas que fincam pé quando querem alguma coisa. Dessas de querer difícil, imorredouro. Quando pensou em trabalhar, foi como se tivesse entrado, sem querer, em rinha de cachorro grande. Num recuo tático, fingiu esquecer a idéia para, anos depois, filhos crescidos e com as contas no vermelho, abraçá-la. Agora, não mais por obstinação: era a vida que lhe exigia uma atitude. “Sempre quis trabalhar, o pai é que nunca permitiu. Mulher para ele era da cozinha pro quarto, e só. Quando casei e vim morar aqui na Parquelândia, em 1962, a cabeça do marido era a mesma; a discriminação contra a mulher, também. Queria estudar Direito, mas acabei me submetendo”, diz entre risos.
Entre uma atividade e outra, ela garante que fez de tudo: foi costureira, sacoleira, proprietária de uma agência de publicidade e transportou, ainda, alunos de escolas da vizinhança. Catou alimentos em feiras livres da capital. Nesta época, a cabeça, segundo ela, “já tinha parado de funcionar”. Tudo por causa dos frangos abatidos ao longo da madrugada no quintal de casa.“Fornecíamos frangos ao Hospital Antônio de Pádua, que hoje nem existe mais. Nunca tinha matado um frango na minha vida. Comecei mesmo por necessidade. Foram quase dez anos abatendo frangos. Como tínhamos de entregá-los de manhã muito cedo no hospital, passava quase toda a madrugada abatendo”, relembra. “A partir de certo momento, percebi que morria a cada animal abatido. Foi a pior coisa que já fiz em toda a minha vida”. Dona Socorro esclarece. Após cerca de dez anos trabalhando como açougueira, caiu em uma espiral de crises: financeira, psicológica, religiosa, emocional. “Minha vida era um conflito. O Walter, meu marido, foi embora pra São Paulo no final dos anos 70. Fiquei sozinha”. O episódio funcionou como uma espécie de divisor de águas em sua vida. Mudou radicalmente os seus hábitos alimentares, passando a não comer mais carne animal, e descobriu na doutrina Espírita um refúgio. A banca, encontrou-a pouco depois, quando estava à procura de trabalho. “Era o que eu precisava. Depois de conseguir a concessão para trabalhar na banca, fui para lá sem nada, porque as distribuidoras não queriam fornecer revistas para outro estabelecimento, sendo que já havia um na praça. Então comecei só com as revistas que tinha em casa, e foi quando descobri a verdadeira razão da minha vida: os livros”. Os primeiros recolhidos na vizinhança mesmo. “Saí pedindo de casa em casa, e todo mundo contribuiu com alguma coisa”, relembra. A partir daquele instante, segundo dona Socorro, sua vida transcorreu sobre dois eixos: “a necessidade de trabalhar e, antes de tudo, a paixão pelo que fazia”. E assim continua até hoje, quando completa, em meio a dificuldades financeiras, quinze anos de Antiquário. Entre as razões do aperto, dona Socorro aponta a “recessão que vive o País.” “Infelizmente, livro não é artigo de primeira necessidade. As pessoas passam em frente à banca e apenas olham. Seguem direto para a Frangolândia, um supermercado logo ali. A comida é mais importante”, brinca. Antes de ir embora, uma grata surpresa. Dona Socorro enfurna-se em um compartimento da banca que não sabia existir. Em poucos minutos, retorna com um exemplar de O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec. “Este livro me salvou”, diz olhando-me demoradamente. Hoje, encostado na estante de casa, o terceiro numa pilha que reúne ainda O apelo da selva e O feijão e o sonho.

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