Got My Cursor @ 123Cursors.com
MEU ANIMAL AMIGO: ZOOTERAPIA

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

ZOOTERAPIA



Em 1982, profissionais do Instituto Médico Educativo de Sablettes, em La Seyne-sur-Mer, que abrigava 90 jovens retardados mentais, resolveram levar seus pacientes a uma visita ao parque de Clos Olive, em Toulon, na França, segundo matéria da revista Manchete de abril/ 88.
Logo os terapeutas, surpresos, se deram conta de que as crianças corriam em direção aos bichos. Nem todos preferiam os mesmos. Alguns escolheram os pôneis, ou as corsas, ou aves, e assim por diante.
Michele Fory, uma das terapeutas, lembra o caso de uma pequena menina africana, de dez anos, que jamais emitira qualquer som. Com a aproximação e posteriores contatos com um pônei, conseguiu expressar emoções (se irritava quando o animal não queria andar) e a se comunicar (punha-se a repreendê-lo com sons onomatopaicos e a gesticular).

Vários outros casos são relatados.
Além da alegria e do equilíbrio que as crianças encontravam no parque - comentaram os profissionais - essas experiências mostram um novo modelo de terapia, a zooterapia, isto é, conjunto de procedimentos que visam auxiliar o paciente para a melhoria de seu quadro clínico, mediante a utilização de animais.
Com esse recurso, educadores e médicos puderam estabelecer contato com seus pacientes autistas, "despertados" de seu estado constante de recolhimento, pela presença e convívio com animais.
O prof. Charles Pilet revela que, no adulto, o simples contato com um cão ou um gato, o ato de acariciá-los é um santo remédio para baixar a pressão sangüínea. E, nos lares de pessoas idosas, a presença de um animal aumenta as expectativas de vida.
Hoje, várias entidades que trabalham com deficientes mentais valem-se do precioso recurso da zooterapia.
Utilizada na Europa já há vários anos, uma forma de zooterapia, a equoterapia ou hipoterapia usa o cavalo como agente terapêutico. No Brasil, começou a ser aplicada em meados da década de 80, como coadjuvante terapêutico no desenvolvimento psicomotor de portadores da síndrome de Down ou de outras deficiências neuropsicomotoras congênitas ou adquiridas.
A terapia complementar com auxílio do cavalo tem sido indicada também para pessoas com deficiências sensoriais ( como cegos e surdos), atrasos psicomotores e dificuldades de coordenação motora (ataxia), atrofias musculares, paralisia cerebral, distúrbios comportamentais e outras afeções.
A equoterapia ainda é uma técnica de elite, segundo a revista Saúde, de jan./98; o primeiro passo para minimizar esta situação parece ter sido dado pela Universidade de Santo Amaro, em São Paulo, que implantou na Faculdade de Fisioterapia a equoterapia como curso de extensão universitária, atendendo a pacientes de baixa renda, ao mesmo tempo em que promove a especialização de profissionais.
Segundo Leticia Junqueira, equoterapeuta dessa equipe, "o cavalo é inteligente e sabe que está sendo usado, sente que está sendo útil, não reclama e coopera. Ele transmite equilíbrio, poder e amor, sentimentos que dão confiança e ajudam no melhor desempenho de crianças e adolescentes".
Conforme a revista Momento, de nov./dez. 97, existem atualmente 25 federações de equoterapia espalhadas pelo mundo, sendo que a federação brasileira contabiliza cerca de 70 centros.
"Talvez mais importante que a parte fisioterápica, a relação que o paciente estabelece com o cavalo é que vai promover sua melhoria - comenta Yina Nascimento, da equipe da Ande (Associação Nacional de Equoterapia); o praticante, ao se relacionar afetivamente com o cavalo, passa a se aceitar também. O cavalo ajuda a resgatar a auto-estima, pois aceita a pessoa independentemente de sua condição. Seu amor é incondicional".
Quem ilustra bem essa relação é a paciente Cathlen Cudo , de 24 anos, que tem problemas na fala e na parte motora. Diz ela:
"O cavalo não tem preconceito. Não dá para explicar o que o praticante sente, quando está em cima do cavalo. Ele percebe que é amado pelo animal e essa relação é recíproca".
A equoterapia proporcionou a Cathlen maior agilidade, tonicidade muscular e auto-estima, possibilitando que enfrentasse desafios que jamais ousaria antes do tratamento, como tirar carteira de motorista ou mesmo emitir opiniões na sala de aula.
O clima de afeto criado entre o cavalo, a equipe de profissionais e os pacientes é fundamental para o sucesso do tratamento, possibilitando a estes últimos criar laços de amizade e confiança que muitas vezes não encontram no mundo exterior, comentam as terapeutas.
Essa relação afetiva torna-se tão preciosa que um dos grandes problemas enfrentados pela equipe e pelos pais, é o fato de que os praticantes não podem postergar o tratamento para sempre. Somente na sede do Distrito Federal, onde 213 pacientes são atendidos semanalmente, há mais de 100, na fila. Alguns esperam vaga há dois anos!
À medida que são atingidas as metas propostas, o que ocorre em 80% dos casos, o praticante deve ceder seu lugar na terapia, para que uma nova pessoa inicie o tratamento.
Mas, as crianças não querem parar e o rompimento do vínculo afetivo gera novas dificuldades.
Para os psicanalistas, o cavalo está associado à força e à vitalidade, e seu domínio por uma criança dá a ela a sensação de ser mais poderosa que o animal, resultando em intensa auto confiança.
A revista Hippus, de dez. 96 também editou matéria a respeito ressaltando que, em deficientes mentais, nos quais invariavelmente o cavalo exerce imensa influência psicológica, o fluxo de afetividade é transmitido bilateralmente, isto é, cria-se um laço de amizade entre o praticante e o cavalo, o que ajuda no desenvolvimento do componente emocional do paciente.
Outra forma de zooterapia, que vem revelando sucesso é a que utiliza golfinhos; particularmente na Flórida, nos Estados Unidos, existem vários centros importantes que estão sendo acompanhados por uma de nossas alunas. Os resultados são promissores!
O que vou tratar, em seguida, não se identifica exatamente como zooterapia, pois a finalidade da utilização de animais não visa à melhoria do estado clínico do indivíduo, mas sim estabelecer entre eles - pessoas e animais - uma forma especial de relacionamento com o objetivo, digamos assim, de "prestação de serviços".
A revista Manchete de abril/88 traz interessante matéria soobre o trabalho de Henriette, um macaquinho fêmea do gênero Cebus genus, especialmente treinado para servir Sue Strong, 37, um dos 90 mil americanos tetraplégicos (paralisados dos ombros para baixo).
Animais como Henriette aprendem a suprir as necessidades básicas de pessoas fisicamente incapacitadas, como acender e apagar luzes, folhear livros para a leitura, aquecer refeições, servir água e sucos, colocar música no tape-deck etc.
A idéia de treinar macacos para auxiliar seres humanos foi desenvolvida por Mary Joan Willard, antiga colaboradora do psicólogo B. F. Skinner, o pai da teoria da modificação do comportamento.
O projeto, que deu certo, estendeu-se a outros países como Argentina, Canadá e Israel.
A Helping Hands: Simian Aides for the Disabled, empresa norte-americana de NewYork possui material (livro e vídeo) de apoio a interessados.
Nas fotos que ilustram o artigo, Henriette aparece em várias situações, demonstrando ser a mais devotada amiga de sua paciente humana.
No I Congresso Brasileiro de Bem-Estar Animal, realizado em São Paulo, em 1997, houve uma palestra seguida de atividade demonstrativa sobre o treinamento de cães para guias de deficientes visuais.
Pela revista Primeira Pata, de abril/98, Michael Geary transmite várias informações a respeito. Conta que a utilização de cães para esse fim surgiu na Alemanha, com a finalidade de ajudar soldados que perderam a visão na Primeira Guerra Mundial.
Ainda na Europa, a Guide Dogs for the Blind Association, que foi fundada em 1934, atualmente é composta por cinco unidades, sendo uma delas na Escócia.
Nos Estados Unidos, a introdução desses cães-guias deu-se em 1926, com a fundação do Master Eye Institute.
"Importante" - diz o autor - "são as características do cão; deve ser inteligente, adaptável a diferentes situações, afável, não efusivo demais, e que tenha porte compatível para que uma pessoa de estatura média possa andar confortavelmente segurando a guia".
É impressionante o trabalho desses animais, graças ao qual o indivíduo que tem deficiência visual adquire maior liberdade e segurança em suas atividades.
Bem, de tudo isso surgem algumas considerações.
É preciso que avaliemos essas situações com discernimento, aceitando o fato de que os animais estão servindo ao ser humano nas atividades de zooterapia e de prestação de serviços, em circunstâncias restritivas à sua qualidade de vida.
Os cavalos, por exemplo, são necessariamente castrados, para que se tornem mais dóceis e obedientes; os macacos são retirados de seus hábitats e submetidos a condições totalmente diferentes do que lhes seria natural; os golfinhos ficam confinados em tanques, deixando de usufruir as possibilidades inerentes à vida livre; os cães-guias de deficientes visuais passam a viver em função das atividades para as quais foram preparados.
Tudo isso sem dizer que, até se tornarem aptos, são submetidos a exaustivos treinamentos, nem sempre contando com a paciência e a tolerância de seus instrutores.
Por essas razões, pessoas ligadas a movimentos mais radicais, em defesa dos animais não aceitam a sua utilização para esses fins.
Embora essa questão tenha mérito em si mesma, não posso deixar de compará-la a outras situações em que se dispõem dos animais.
Quem dera os pobres bichos desses deprimentes espetáculos da ignorância humana - touradas, vaquejadas, rodeios, rinhas de galo e de cães, farra do boi e tantos outros -, pudessem estar inseridos em programas bem orientados de zooterapia ou atividades similares, ao invés de serem constrangidos à experiência da dor e, por vezes, ao sacrifício de suas próprias vidas em favor da simples satisfação do "prazer" alheio.
Assim, no relativo à questão do uso de animais em zooterapia, penso que o mais importante é atinarmos para a maneira como isso pode e deve ser feito.
Mesmo sob as condições restritivas apontadas, deve haver a preocupação de se manter os animais em uma boa qualidade de vida; é preciso que sejam adequadamente treinados, com paciência e respeito, bem tratados e, principalmente, amados.
A relação de amizade e confiança que venha a se desenvolver entre as partes, certamente contribuirá para a evolução tanto do espírito do homem quanto do espírito do animal.
Outra consideração é relativa à evidência de que os animais são seres afetivos.
Têm sensibilidade, que parece ser maior ou menor, segundo a espécie e o próprio indivíduo, sensibilidade essa para a qual não estamos, de modo geral, despertados.
Entretanto, o trabalho especializado de zooterapeutas e de treinadores de macacos, de companhia e de cães-guias vem demonstrando de maneira racional as qualidades e as aptidões desses animais, através das quais é possível o estabelecimento de uma forte relação de amizade e confiança para com o ser humano.
Esses procedimentos científicos e técnicos vêm confirmar a existência, nos animais, de um componente mental ou psíquico, ao qual se relacionam todas as características apontadas pelos profissionais, e necessárias como suporte ao trabalho que realizam e à relação afetiva que são capazes de estabelecer com as pessoas.
Esse componente mental ou psíquico dos animais, que a Ciência não tem como negar, sabemos que se encontra afeto ao espírito, no caso, ao espírito dos animais!
Existe um outro dado, bastante objetivo, que vem demonstrando a capacidade de interação afetiva de animais e seres humanos.
Crescem a cada dia, em todo o mundo, atividades comerciais direcionadas ao "PET" , ou seja, ao animal de estimação; cães, gatos, hamster, macaquinhos, peixes de aquário, pássaros e outros tipos de aves, além de cobras, iguanas e assim por diante.
Basta dizer que as rações para pets representam hoje, no Brasil, o quarto produto agropecuário mais importado dos Estados Unidos (750 mil toneladas em 1997).
E qual será a razão pela qual as pessoas, sejam crianças, adultos ou idosos estão se apegando tanto aos bichos?
Penso em duas possibilidades.
A primeira é triste. Parece que as pessoas estão cada vez mais sozinhas, não confiam seus sentimentos a outras pessoas, e assim, na condição de carentes afetivos, transferem para os animais o seu apego e os seus cuidados.
A segunda, entretanto, é alentadora, embora julgo que se refira a uma minoria.
É possível que o ser humano esteja descobrindo a sensibilidade dos animais e, através dela, percebendo a possibilidade de interagir de maneira harmoniosa com toda a criação.
Tomara!

Irvênia Prada

Nenhum comentário:

Postar um comentário